2.06.2009

tanto

é tanto.... que de espanto...
não há quebranto....
e te protejo com um manto
de plumas...
e banhos de espumas...
pois assim vai alma....
que por sua causa... dorme calma
na cama...

(para Dani...)

7.20.2008


é quando paro de correr

e quando paro

é quando percorro trilha de coisas quebradas

e não corto

é quando abro portas fechadas

que eu me tranco

é quando minhas dores são pesadas

que eu não peso

é quando tudo está lotado

que ando no vazio

é para respirar que fecho as narinas

é para gritar que fecho a boca

é para sempre ter você

que eu fujo

é para um dia ficar parado

que corro tanto

é para não sentir dor

que me corto

é para voar que eu durmo

é apra dormir que eu canso

e não me canso

quando nada vem...

(...)

assim como é..

de tanto engolir gente
eu me afundo
é tão doído quando me atacam
é tão curto sem gentileza..
seus tamancos e minhas costelas
sua raiva e meu olhar distante
vaso de vaidade
agulhas e línguas
pés descalços e tijolos
eu lá embaixo... e o mundo assim como é...

10.29.2007

FUGA E RELICÁRIOS...


De tal fuga... meus relicários e um sorriso
De minha ausência... tens minhas febres
Me darei por vencido pois não há boca que narre
Há pequenos objetos que não sou capaz de montar...
Não há louça quebrada
Não há copos pra lavar
Não há chuva que me molhe mas na porta estou...
Reforço a fé de que haja pegadas que eu possa seguir...
Um beijo tem a crueldade da exaustão...
Se me causo dor é porque atinjo o rim cheio de pedras...
E das dores tenho minha felicidade
Absorvo e me torno livre...
E livre sou capaz de voar sem que me veja...
E é pela fresta de luz que visito teus detalhes...
Abro sua geladeira...
E durmo... e saio...
Verás que tenho mãos de defesa...
E o corpo talhado em cicatrizes
Tenho facas pontiagudas mas não corto
Paciência para ser lento
Corpo pra derretimento
Meu estado de fuga
Ainda assim sei que não ficará para o café
Sei que dormirei em concha de mim mesmo
Mas continuo em direção ao mar
E é tão rápido que não consigo parar de correr...
É quieto o miolo da tempestade
Onde há um corpo que flutua
Nesse miolo palavras se perdem...
Contento-me com o sonho de minha janela...
Com sua delicadeza em não quebrar meus objetos imaginários
Por estar tão perto...
(...)

10.23.2007

NÃO É DE SÚBITO QUE OLHO PARA DENTRO

Olho que olha para dentro
Somente terra a dentro é possível pensar
Não acontece o mesmo com a superfície...
Ou nas alturas...
Minha malícia está profundamente enraizada
É aqui que lido com ela
É tarde demais para ver o sol...
Os cães estão enlouquecidos...
Roçam os focinhos no chão para livrar-se dos carrapatos...
Aqui não os tenho...
Embora eu os ouça
E sinta algo por eles
No que se refere ao assassinato que me colocou nesta posição
A apresentação do corpo bastou para apagar os ressentimentos
Mesmo após a carnificina ainda resiste a sensação de algum outro crime oculto
Imagino-me na superfície... mas insisto nos olhos vendados
Desvio o meu olho exausto pois tentar focalizá-lo é fisicamente desgastante
Mesmo nesta condição há bolhas de sangue borbulhando em meu cérebro...
Sinto arranhões produzidos por ilusões passageiras
Por nossas tentativas de algum desvio
Há manchas em minha carne mas não são exatamente cicatrizes
Minhas cicatrizes são produzidas pelo meu próprio espelho
De meu ato de respirar surgirá sempre o inesperado.
Não. Não me esqueça. Há tantos objetos que aceitam remendos.
Mesmo a faca...
O sangue pode ser lavado
Decerto escorrerá pelo ralo
Longe de meu corpo
Endurecemos tanto as nossas expressões
Paremos...
Vamos jantar e depois dormir
O branco que hoje possuo é o mais violento de todos
As palavras que tento pronunciar não fecham feridas
Há esse veneno da curiosidade
Corrosivo
Desintegrando o fígado
Mas não preciso de fígados ruins
A respiração penosa está sumindo
E o que virá agora me lançará ao fundo
Se a respiração tomou controle é porque aprendeu a não existir
A balança está revertida mediante a único golpe
Inalei gás venenoso antes de ser esfaqueado
E o vapor que cegou meus olhos mostra o rosto de um sujeito estrategicamente mergulhado na obscuridade
A partir daqui tudo me é eternidade...
Aqui posso ver meu olho pelo lado de dentro
Enxergo com precisão a inflamação de meus rins
E o que dá origem a meus sonhos
Minha ausência e meu amor são irmãos gêmeos
Ambos doem
Ambos são sublimes
Estou em uma janela onde a casa sonha ser mundo
Onde minha alegria tem cabimento
Onde não há a inveja dos anjos
Não é de súbito
Sempre há algo para se inventar
Entrem... um a um
Deixo poeirar os objetos da sala
Quero destruir meus objetos provisórios
Ainda assim não desejo o definitivo
Quero fechar os olhos e afiar uma lâmina de alegria
Quero submergir minha alma...
Quero desraciocinar
Gastei noites demais esperando os dias...
O regresso está ganho
O barco irá me buscar...
Esqueci o meu nome...
Há quem olhe a fera e pense na jaula
Quero desentortar a alma...
Aborver o silêncio quando ele chega
Quero fazer barulho
Cor em minha penumbra...
Sombra acompanhada...
Não é de súbito...

ESCAVAÇÃO PARA A SUPERFÍCIE


Está passando...
Lentamente ganho uma sensação de restauro
De retorno aos meus poderes de observação....
Embora esteja imbuído de alguma raiva, sinto-me frio e deprimido
Meus olhos já não estão fixos em sua direção...
Minha aura de ódio esfriou
Tudo isso é a natureza essencial de minha violência
Temos sempre a necessidade de manter a mão suja
O erro é um ato de prazer para o homem
A destruição é um ato sexual
E essa presença apenas consegue revolver camadas mais superficiais de minha memória
E faz reviver a palavra adúltero como um eco sexual
Há uma terrível experiência que pretendo não comentar enquanto estiver vivo...
A verdade absoluta é assassina
Um homem que revela seus segredos não possui nenhuma saída
Disseco o medo do escuro
Minha mente fica nublada ao descrever o obscuro
É como se meu coração se tornasse repulsivo
Por instantes tomo a perspectiva do observador
Cada talho em minha pele me rejuvenesce
Minha sanidade desmente as proporções de minha carne
Sinto que ainda estou encurvado como um cadáver
Mas insisto na vida e arrasto-me pelo porão em direção à escada
Ainda tento ameaçar meu íntimo
Mas meu tempo é valioso....
Alucinações são tão valiosas quanto a realidade mas é preciso discerni-las
Pecado e maldade não são a mesma coisa
E foi a maldade que eu havia ignorado
A necessidade da vingança me sufoca e manifestá-la só aumentará o abismo
Tenho nós em minhas artérias e moscas retorcendo os meus dedos
Mas também foi aqui que adormeci olhando o mar
Se nos falarmos, choraremos sem retorno
Estou próximo a meu ato de morte
Onde guardarei em mim meus segredos mais profundos
Retirei o meu inferno particular do armário
E coloquei no quintal para retirar o mofo
Acostumei-me com a escuridão
Ela me é confortável
E meu olho detecta a luz vinda da janela
Não é mais a escuridão que me assombra, pois a ela pertenço
O que me trai são essas luzes produzidas artificialmente
Consigo distinguir a silhueta negra e o quanto treme pela tensão reprimida
Luto para elevar-me acima desse subterrâneo o mais rápido possível
Haverá um longo período até encontrar o nível do chão
Agora que não mais tenho medo sou obrigado a seguir o caminho sozinho
Meu corpo inteiro foi desmembrado e atormentado por dores agudas
Ainda estou no processo de assimilação... logo o de dissimulação
Meu corpo está mais forte mas meu tempo custa
E não admito ser costurado
Não admito que deposite em mim sua única esperança de vencer o medo
Em meu silêncio vc não pode penetrar!
Continuo a escavação, aprofundando os meus subterrâneos
Um dia essa mesma escavação será minha cova...
E haverá paz...

acidentes geram crimes

Abandonei qualquer tentativa de mantê-lo em silêncio
Há no fundo daquela voz de desenho animado um tom de exibicionismo desafiador...
Um canastra de desejo insatisfeito... mesmo quando feito
Que revolve suas entranhas
Um aspirante a assassino
Obcecado e agarrado a ficções infantis
Uma criança cruel...
Que exibe a picada no dedo provocada por um inseto
mas esconde de todos que escolheu uma espécie cuja picada não arde
Insetos podem voar...
Este se debate no chão
Será esmagado sem dúvida
Mesmo que se eleve a domador de moscas
Logo perceberá que elas voltam-se diretamente para onde estão as fezes...
Um mau parasitário que não teve coragem ou inteligência para cometer o crime por conta própria
Apenas tomou o acidente como crime...
Eu esperei sinceramente algum ato de coragem
Não houve um plano sincero de autodestruição
Nenhuma redenção
Um orgulhoso que escolheu ser salvo
Há muito mais dignidade em ser linchado ou condenado à morte do que querer ser salvo
Não. Não aceito seus olhos
Vc não será linchado
Amanhã de manhã não haverá uma corte para sentenciá-lo
Um sentimento de culpa de codinome orgulho
Triste é o homem que brinca com situações perigosas
Mas que invariavelmente guarda uma saída para o último momento
Há em vc um sujo subterfúgio para continuar vivendo..
Porque não encara seus fantasmas?´
É preciso ser absolvido por uma honra inata para ser um feio de pureza
Somente os feios puros podem ser belos...
Ainda há algo a dizer sobre heróis salvadores de princesas..
As distorções de sua memória indicam o meu desejo de que o dragão sempre vença o herói....
O verdadeiro malfeitor possui defeitos em sua sensibilidade
Que o leva a trair os sofridos
Essa arma sem balas será usada pelo meu inimigo...
Quando estiver abandonado e obrigado a defender-se sozinho....
É terrível aquilo que aproxima-se à denunciá-lo...
Esse que não fortalece aliados
Mas contenta-se com a aparência da cooperação
Infeliz... ainda tenta esconder as sombras na cozinha
Enquanto gasta energia em colocar flores de plástico do lado de fora da casa
É necessário muito caráter para sentir vergonha
Para ser punido...
Os dois lados de sua personalidade não vão se unir na hora da morte
É fácil pegar os ratos na ratoeira...
Eles ainda não resistem ao queijo..

4.16.2007

carrapatos e gotas de sangue

Há esse céu violento que desce até meu estômago
de fato deixei de ser amador em minha violência...
Há em minha muita brutalidade benzida
somente na escuridão há a dimensão exata de meu corpo
gosto de bílis de um sujeito que não golpeia com violência um jovem desprotegido
quanto ao outro... este rato que se esconde para roer a comida do armário
ele ainda insiste em desviar o olhar e retirar-se na escuridão de cobertores....
é necessário que haja honra para ser carneiro em sacrifício
e a escolha não é do carneiro
eu o odeio de uma forma verdadeiramente pura e santificada
não lhe desejo um funeral

quero esse frio distanciamento
quero sondar manhosamente os sentimentos de um canalha
embora minha voz seja tão clara quanto o desgosto
dou grunhidos, disfarçando meu secreto desprezo
é necessário refazer os cômodos... pois assassinos criam hábitos

demoli compartimentos e queimei tudo
um fedor da terrível experiência ainda paira no ar
não são fantasmas mas fedem tão quanto ossos penetrados pela umidade
há sempre esse estranho odor servindo-lhe de aura como uma membrana protetora
a condição natural daquele que trai os seus camaradas é ser expulso do grupo
o que trai a sua natureza é estirpado de alguma forma

Há um pavio irremediavelmente aceso...
minhas verdades, uma vez desencadeadas tem o destino da bomba
somente o desprezo absoluto é capaz de encarar a verdade
quero esfarelar esse seu corpo que insiste em continuar vivendo
falar a verdade é tão difícil quanto qualquer crime perfeito...
é necessário muita dissimulação para resisitir a elas
o homem que revela verdades não tem saída
certamente ficará seco ou será espancado até a morte
é bom que saibamos que a limpeza é de um branco violento

assim... descubro um prazer perverso em fazer correções em minha memória
meu cadáver que ficara no fundo de um depósito no porão
foi devorado por formigas... renasceu em meio a um deserto... que não é plano

fileiras de formigas entrando em minha cabeça
uma gota de meu sangue pode matar uma formiga afogada

quanto aos carrapatos...
eles se recusam a sair das orelhas dos cães...

3.02.2007

morto


Tenho rastros que não podem ser vistos pois pertencem à escuridão...
Não deixo de compor meus papéis, mas elimino qualquer possibilidade de usar uma máscara...
Olhos arregalados não enxergam a natureza de um olho cego...
qualquer realidade.... olhos que não funcionam mesmo escancarados
Mas do que saber temo o entendimento de tudo isso
Minha colisão não foi com o inesperado
Sinto a velha dor como mais alguma coisa que não posso rejeitar
como sempre não fico indiferente mas ignoro
Há pouco oxigênio mas consigo respirar aqui onde agora estou
Meu nariz que precisa de remédios para respirar inala meus subterrâneos
Odores que meu corpo é treinado a suportar
Meu corpo é um cadáver que repousa contendo uma realidade que não tive antes
Esforço-me a atravessar o túnel
Minha pele dói tanto que, estirada, destina-se a romper
Tempo não admite repetição
É uma experiência de dissolução
Minha intimidade com essas bactérias vorazes
Quanto a morte todos tem que morrer... o melhor é morrer da maneira que mais lhe agradar
É uma viagem de prolongada interrupção
sedados não sentimos raiva
Sou da mesma espécie da tristeza
Se hoje lhe visse bêbada... arrancaria a garrafa de suas mãos.... e beberia
Devo enfrentar a vida sóbrio mas a sobriedade é sem dúvida minha autodestruição
Ser sóbrio seria um sonho
Sempre existiram coisas a serem reveladas.... coisas que não servem para os vivos
procurar algo que desinfete seria penoso demais
pois meus ferimentos nunca seão curados pela limpeza
aqui onde estou agora não é possivel precisar o tamanho da chuva...
mas sei tudo sobre umidade
Estou exausto e não há qualquer possibilidade de distinguir em qual profundeza estou agora
Não há luz de qualquer maneira
é tão escuro que a própria escuridão não tem por onde fugir
mas ranjo os dentes e tenho certeza de minhas mãos arrancaram algo
Não consigo estabelecer relação entre essa escuridão e o motivo de estar aqui
Sei voltar à superfície
Não há nada que eu possa fazer por amigos mortos...
mas possuo força para descobrir algo a fazer por mim....
Tenho dois amigos mortos...
um que ressuscito todos os dias e outro... que mato todos os dias
Espero pacientemente após tanto atraso....
Meu hálito é um mar negro....
e não me incomodo porque aqui tenho um mundo imenso....
a superfície é entediante....


1.26.2007

MINHA FELICIDADE É QUASE SEMPRE DOLOROSA....

arranco uma pedra fincada em minha pele...
e aceito essa crueldade sensual
minha delinquência sempre mantiveram meus olhos atentos
não reajo ao lugar comum de que toda vítima
espera constantemente uma vingança
o que possuo agora é uma maldade santa
que não destrói, mas equilibra
desafio minhas proibições
e revisto minha malícia com a experiência de ser descoberto
meus enigmas foram violados
meus heróis ajoelharam-se à minha frente
em uma espécie de renúncia cheia de desculpas
possuo em cada perna quebrada um princípio de seleção
nada é tão lógico quanto o impulso carnal
que revolta a razão...
que deixa a qualidade de amar à beira do impossível
é a impossibilidade que o torna pleno
amar é uma investigação de profundezas
minhas tentações serão puras se ausentes da posse
deixo a vitória profana a quem a deseja
amantes plenos são destrutivos....
porque a plenitude é o amor pelo irmão
Cada dia homem e mulher tornam-se iguais e fraternos
pouca coisa os distingue...
só alcançarão a plenitude na igualdade do espelho...
é quando dói
é quando se separam
nenhum ser suporta a perfeição
o amor é trágico à luz de meu ciúme
suficiente para haver renúncia
o tédio é uma festa incômoda
acompanhamos insetos batendo asas em nossos ouvidos
cada vez que desejo a carnificina perco sangue em minhas veias
a correção acontece com o tempo
é um erro de cálculo que a natureza cuida de nivelar
logo deixaremos a petulância original
os arrogantes são tolos e conseguem hipnotizar a si mesmos
não quero assassinar meus defeitos
preciso deles...
se eu disser que meus demônios são santos
na certa meus demônios seriam infelizes
Há venenos terríveis na exaustão
esforços artificiais paralisam a mente
estou nu depois da demolição
ando sobre os escombros
encontro pequenos objetos que havia perdido antes mesmo do prédio ruir
até mesmo a minha nudez pode ser um simulacro
sou incapaz de agir contra a minha natureza
quem ousa dizer que não é um foragido?
a culpa sempre nos pertence
quanto custa a simulação?
O que acontece com as mãos?
Há tantas rachaduras
e melancolias
e viagens de volta
todo esse silêncio é uma transfusão de sangue mútuo
qualquer existência será desprezada se negarmos a ela a compartilhação da desgraça....
ignoro e desprezo a compartilhação
é permitido destruir em prol da própria vida
assim são as guerras...
por fim
meus cômodos estão impecavelmente limpos...
já não sou um aprendiz do crime
muito menos coagido a roubar pelo bando de ladrões....
minha felicidade...
será quase sempre dolorosa...
(...)